Carta de Flávio Bolsonaro: patriota sem memória ou ignorância histórica?

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Existe uma ironia profunda no patriotismo de vitrine que se acostumou a transformar símbolos nacionais em mero adereço de palanque. Durante anos, viu-se o ufanismo ser ostentado como um certificado de virtude moral: bandeiras nos ombros, hinos repetidos à exaustão e uma retórica inflamada que prega a defesa irrestrita da pátria. No entanto, quando a estética do civismo é testada na prática, o verniz estala e expõe uma desconexão constrangedora com os fatos mais elementares da nossa própria história.

Um episódio recente, visto na carta divulgada por Flávio Bolsonaro, é um retrato dessa ignorância travestida de solenidade e imponência. Ao timbrar um documento oficial com o brasão dos “Estados Unidos do Brazil”, com Z, nome que deixou de existir oficialmente há quase seis décadas, em 1967, o parlamentar não cometeu um mero detalhe burocrático. Ele escancarou o desconhecimento primário sobre a própria evolução do Estado brasileiro, ou seja, um analfabetismo histórico puro e simples.

Bradar slogans em defesa da nação exige conhecimento prévio. Já respeitar e honrar a pátria exige o mínimo de esforço intelectual: conhecer sua trajetória, entender seus processos e dominar a simbologia real do país que se afirma defender. Quando o autodeclarado “patriota” erra a heráldica oficial e usa uma denominação extinta, fica evidente que o seu amor pela nação não passa de um figurino mal acabado, vestido por conveniência e despido de qualquer conteúdo real.

A gafe ganha contornos ainda mais ridículos pelo contexto: tentar conferir um tom de gravidade e imponência a um documento usando a imagem de um Brasil que ele nem sabe quando deixou de existir. Revela um grupo político que sequer se dá ao trabalho de checar as informações básicas sobre o país que governa ou pretende governar, demonstrando uma preguiça intelectual que envergonha a própria ideia de civismo e patriotismo, algo que parece arraigado na veia de quem apoia o movimento, mas resvala em uma falta de conhecimento histórico básico.

No fim das contas, o uso do brasão errado é a prova da fragilidade desse discurso. Quem tanto exige civismo e patriotismo da população deveria, no mínimo, saber o nome oficial da nação onde exerce seu mandato. O patriotismo que ignora a história não é orgulho nacional; é apenas ignorância fantasiada de verde e amarelo, algo inaceitável para alguém que planeja governar um país, diga-se de passagem.

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