Há um paradoxo evidente na forma como certos símbolos são apropriados na política recente. Durante anos, as manifestações bolsonaristas transformaram o Hino Nacional em uma espécie de mantra sagrado, cantado a plenos pulmões em praças públicas, ruas e quartéis. Entre todos os versos célebres, poucos foram tão repetidos e exaltados pelo discurso patriótico quanto aquele que promete:
Verás que um filho teu não foge à luta
A frase, na teoria, funcionava como um código moral, um distintivo de coragem e uma promessa de firmeza diante de qualquer adversidade. No entanto, na prática, quando confrontamos com a realidade e com o peso das próprias escolhas, a postura de Flávio Bolsonaro revelou uma contradição difícil de ignorar. Diante do primeiro sinal de tempestade política ou de um ambiente verdadeiramente adverso, ele simplesmente recuou. Ele fugiu.
A atitude contrasta de forma severa com a própria estética do movimento que ele representa. O bolsonarismo construiu sua identidade sobre a ideia da intrepidez, do confronto direto e da recusa em recuar diante do oponente. Criou-se a figura do patriota inabalável, aquele que enfrenta o sistema sem hesitar e que carrega no peito o orgulho de uma bravura incondicional.
Mas, novamente ela, a teoria, quando colocada à prova no terreno prático da política real, cobrou o seu preço. Ao optar pela esquiva, por evitar o embate direto ou por se retirar de cenários onde a sua presença era cobrada, Flávio não apenas deixou de honrar a máxima que ajudou a propagar, como expôs uma fragilidade no próprio discurso do grupo.
Existe uma grande diferença entre a retórica inflamada das redes sociais e a coragem necessária para sustentar posições no mundo real. É fácil evocar símbolos de heroísmo, exaltar o patriotismo e fazer uso da camiseta da Seleção Brasileira como materialização do orgulho de ser brasileiro quando a plateia é favorável e o ambiente é controlado dentro de uma bolha de apoiadores.
Outra coisa, totalmente diferente e diametralmente oposta, é sustentar esses mesmos princípios quando a pressão aumenta, os questionamentos surgem e o cenário exige firmeza de caráter. Quando a liderança escolhe o caminho da retirada em vez do confronto esperado, a mensagem enviada aos seus próprios seguidores é de um descompasso incômodo entre as palavras e as ações.
Em um ambiente político onde a coerência é um bem cada vez mais raro e cobrado pelo eleitorado, esse tipo de recuo deixa marcas profundas na imagem pública. O patriotismo de discurso se choca frontalmente com a conduta de quem evita o campo de batalha na hora decisiva ou quando o resultado não satifaz as expectativas. O eleitor, mesmo aquele mais alinhado ideologicamente, percebe quando a bravura exibida nos palanques não se confirma nos momentos de verdadeira exigência.
E no fim das contas, fica a incômoda constatação de que o verso tão cantado com a mão no peito servia apenas para o espetáculo, porque, na hora em que a luta exigiu presença, o filho da pátria preferiu a fuga.


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